Essa semana eu parei por alguns minutos, olhei pra minha estante, pro setup, pra tudo que fui montando ao longo dos anos… e tive uma sensação meio estranha. Não era arrependimento, não era desânimo, mas também não era aquela satisfação que normalmente vem quando você conquista algo que sempre quis. Era mais como se alguma coisa não estivesse fechando, como se o sentido daquilo tudo tivesse mudado sem eu perceber.
E aí veio uma constatação simples, mas que me pegou forte: eu estou comprando muito mais do que estou jogando.
Isso não aconteceu de repente. É um processo que vai acontecendo aos poucos. A gente começa comprando aquilo que teve na infância, depois parte para o que sempre quis ter e não conseguiu, e quando percebe já está explorando plataformas que nem faziam parte da sua história. O hobby cresce, o conhecimento aumenta, as possibilidades se multiplicam… e sem perceber, o foco começa a sair da experiência e ir para a aquisição.
Você conquista um item, fica feliz, configura, testa… e logo já está pensando no próximo. Qual o próximo upgrade, qual o próximo console, qual o próximo acessório que vai “fechar” o setup. E o que era pra ser o ponto final vira só mais uma etapa.
O mais estranho disso tudo é que, em muitos casos, não é nem sobre jogar — é sobre possuir.
E isso não é necessariamente um erro. Faz parte do colecionismo. Mas quando você começa a olhar com mais calma, percebe que muita coisa que você comprou não trouxe uma experiência real, só aumentou o volume da coleção. São itens que você queria muito, que fizeram sentido no momento da compra, mas que hoje estão ali… parados.
Ao mesmo tempo, algumas coisas completamente fora do plano acabam tendo um impacto muito maior. Foi o que aconteceu comigo com a TV de tubo e com o MSX. Nenhum dos dois era prioridade real dentro da minha lista. A TV até era algo que eu cogitava, mas não naquele modelo específico. O MSX então, eu nem queria ter. E mesmo assim, foram duas das experiências mais ricas que eu tive recentemente dentro do hobby.
Porque ali não foi só comprar. Foi descobrir, testar, aprender, se envolver. Foi algo que continuou depois da compra.
E isso muda completamente a forma como você enxerga a coleção.
Outro ponto que me fez repensar bastante foi a forma como eu lidava com os itens aqui dentro de casa. Sempre fui muito cuidadoso, talvez até demais. Aquela coisa de não deixar mexer, não deixar usar, manter tudo perfeito. Principalmente com meus filhos. E aí eu percebi que, no fundo, eu estava protegendo objetos e deixando de criar experiências com eles.
Hoje eu tenho um cuidado diferente. Ainda existe zelo, claro, mas não é mais aquele apego travado. Eu prefiro ver eles mexendo, brincando, descobrindo, do que manter tudo intacto e sem história. Porque no final das contas, o valor daquilo tudo não está só no estado do item, mas no que ele proporciona.
E aí a coleção deixa de ser só um conjunto de coisas e passa a ser um meio.
Um meio de aprender, de explorar, de compartilhar… e principalmente de viver o hobby de verdade.
Isso não quer dizer parar de comprar. Eu continuo comprando. Mas hoje existe um filtro muito mais claro. Não é mais sobre “quero ter”, é sobre “isso faz sentido?”. Faz sentido pra mim, pro que eu gosto, pro que eu quero explorar, pro que eu quero construir dentro do canal e até dentro de casa.
Porque no final, talvez o ponto mais importante de tudo isso seja justamente esse: entender qual é a função da sua coleção.
Ela está ali só pra ser admirada… ou pra ser vivida?
E essa resposta muda completamente a forma como você se relaciona com o hobby.